domingo, 29 de março de 2015

DESPEDIDA


Entrei num jardim garrido
Uma flor desabrochou
Quando o orvalho caiu,
...Uma lágrima rolou.
O açoite dos brando ventos
Um beijo me trouxeram
E quando senti teus lábios
...Outros me deram.
Eram beijos frios, gelados
Como o da morte peçonhenta.
E quando morri,
...Vi a vida mais nojenta.
Tudo era caos, tudo era frio
Correndo em minhas veias congeladas
E quando debrucei no céu sombrio
...Rolei as escadas.
Estampado em minha tez já macilenta
O riso escárnioso da desgraça
O céu fechou-me as portas, e o paraíso
...Roubou-me a graça.
Um ente segurava minhas mãos
Derramando sobre a fronte teu adeus
As nuvens se abriam lisonjeadas,
...Pelas mãos de Deus.
Minhas córneas esbugalhadas engoliam
O inferno suculento que apareceu
O beijo desejado da donzela,
...Maria, morreu...
Quanto precipício adiante!
Luzes! Como a vela ateada.
Morto, como um mísero guerreiro,
...Sem sua espada.
Procriam-se os vermes, a carne morre
E a alma na desgraça se habitua
Esquecem da grandeza de um homem
...Que amou a lua.
Um homem que não foi homem, foi saudade
Pelas chamas do desejo e solidão
Todo sentimento perdeu a gala
...Na escuridão.
E quando o monumento for erguido
À lápide, gravada e estampida
Homenagem póstuma ao guerreiro
...Da despedida.
E é entoado o cântico do adeus
E erguida as bandeiras do além
Minha morte, celebrada, é com júbilo
...Por alguém.
Na choça um banquete é celebrado
No papiro o meu último soneto
As chamas do crematório acendida
...Para o meu lamento.
E as dádivas das musas, pois pendidas
Sob o teto do meu lúgubre albergue
Deus, minha alma desguarnecida
...Está entregue!
As rosas do jardim perderam a gala
A fonte do arrebol também secou
O pó do mausoléu, depois de dias
...Evaporou.
E hoje, um zumbi vagueia triste
Por entre deusas e jardins floridos
Nunca mais tocaram no seu nome,
...Fora esquecido.



Odilon de Oliveira

11/06/1997

sábado, 28 de março de 2015

A MUSA INSPIRADORA VISITA O LAR DO POETA MORTO

- VISITA:
Bem-vinda à minha sepultura,
Meu jazigo eterno e sombrio
Que às margens serenas de um rio
Minha alma além assegura.


- OFERENDA:
Não trazes oferenda, querida?
Nem rezas por mim um rosário?
Durante toda a passagem terrestre,
Em tuas mãos não passei de um otário.

- A FOTO:
Espero que olhes a foto,
Como nunca meus olhos fitastes.
Cuspa em mim, pelo beijos,
Que sempre pedi e negastes.

- A CULPA:
Não culpo-a pela minha morte
Somente aos meus sofrimentos
Pois minha’lma sublime e etérea
De sofrer, goza no firmamento.

- À NOITE:
E quando as estrelas à noite
Cintilam anunciando a lua,
Eu vejo teus passos levianos
Cortando o horizonte das ruas.

- O ESPIÃO:
Não penses que não a acompanho
E que livre de mim, tu estás...
Ainda a paquero, persigo-a
Sei de tudo, o que fez -o que faz.

- A CRUZ:
Espero que olhes a cruz
E veja meu nome gravado.
Toque-a, sinta meu corpo,
Que desfez-se pelo teu pecado.

- O ADEUS:
Não finja agora enternecida
E não derrame sequer, aos olhos meus...
Pois não é a primeira vez que partes,
Adeus, minha querida,... Adeus.

Odilon de Oliveira
QUANDO OS CORAÇÕES SÃO IGUAIS

Quando o amor é recíproco
E ambos os lados são coerentes:
Os corações são aprazíveis...,
E desmentir não há quem tente.

Debalde desentendimento
Não há quando há amor;
Os corações são mais aprazíveis
De lisonjas e de louvor.
As palavras que delicadas
Suspiram cada momento;
Os corações são mais aprazíveis
No diálogo há entendimento.
Quando o coração pulsa forte
No aperto de um peito amado:
Se torna mais aprazível
O beijo apaixonado.
Saber que recebe amor
Ao mesmo tempo que doa:
O coração sente-se aprazível
Como uma’ave livre que voa.
Dizer “eu te amo” é fácil
Perante um amor fiel;
Os corações são mais aprazíveis,
Elevam-se até o céu.
Os olhos são compreensíveis
Aquietos de concisão;
Os corações são mais aprazíveis
Quando tornam um só coração.

12/03/1995

Odilon de Oliveira